Aí são outros quinhentos: o padre em apuros

por José Diniz d Moraes, procurador do trabalho no MPT/RN

Nos sábados, antes do meio dia, era comum sentarmos na calçada em frente ao bar de Dona Zezé para jogar conversa fora, tomar cerveja gelada e jogar palitinho. Morávamos quase todos no CESUPA, centro estudantil da minha cidade. Uma república de estudantes. O grupo mudava sempre, mas os piadeiros eram sempre os mesmos. Sempre me intrigava onde aqueles meninos recolhiam tantas piadas e anedotas, mas hoje me preocupa o esquecimento desse anedotário popular que tanto alegra as rodas e patotas.
Vez por outra, aparecia uma amiga de meu irmão que virava a própria piada. Quando se acabava de contar a décima piada, ela ainda estava tentando entender a primeira e caía em gargalhada quando não se tinha mais piada. Meu irmão ficava meio irritado e envergonhado com o intelecto da moça, mas não havia muito o se que fazer, e o jeito era contar tudo de novo com algumas explicações extras, o que acabava tirando toda a graça da piada.
O que vou contar aqui é uma dessas anedotas que lá ouvi, e mesmo certo que, além da falta de talento para o ofício, a anedota perderá muito da sua graça, e faço o registro apenas com o intuito de preservação da riqueza da nossa cultura popular e para homenagear àqueles que me ensinaram a suspeitar dos homens bem intencionados.
Começou ele perguntando se sabíamos a origem da expressão “aí são outros quinhentos”. Esta expressão é antiga no léxico português. Um dos registros mais antigos é um diálogo da peça Filodemo (1587), de Luís de Camões, em que uma personagem diz “Dionísia, a mais formosa dama que nunca espalhou cabelos ao vento, é filha de não sei quem” e a outra responde “Esses são outros quinhentos”. No sentido em que a conhecemos, diz-se que decorre uma lei espanhola instituída na península Ibérica, por volta do século XIII, que estipulava uma multa de 500 soldos a quem ofendesse a um nobre.
O nosso cronista estava disposto a provar que essas versões oficiais são falsas e a que verdadeira origem da expressão “aí são outros quinhentos” nasceu no sertão nordestino. Dizia ele que, quando José do Egito quando resolveu deixar o sertão por força da seca, vendeu todos os seus pertences e preparou-se para ir para São Paulo. Como as incertezas da capital eram muitas, dispôs a deixar parte do seu dinheiro no interior mesmo. Saiu pela cidade perguntando com quem deveria deixar o dinheiro, e a resposta foi uma só, com o Vigário.
Zé do Egito, pela manhã, chamou quatro amigos e foi até a casa do Vigário. Lá, na presença de todos e testemunhas, o homem depositou o dinheiro nas mãos do Padre e saiu para beber e despedir-se dos amigos nos bares da região. Pela tarde, dizendo-se arrependido, voltou sozinho à casa do Vigário e pediu o dinheiro de volta. Pegou os seus 500 contos de réis e foi para a sua casa. No dia seguinte partiu num pau-de-arara para o sudeste. Sampa ficava longe.
O Vigário já estava acostumado a ser depositário de toda a população e não suspeitava que um caipira pudesse lhe criar alguma dificuldade. Não comentou nada com ninguém sobre a devolução do dinheiro e continuou a sua rotina de missas e novenas. José do Egito não se adaptou muito à vida de Sampa, e, alguns meses depois, estava de volta à cidade natal.
Chegou cedo à casa do Vigário. “Seu Vigário vim buscar meu dinheiro!”, disse o homem sem cerimonia. O Vigário tomou aquele susto. “Mas que dinheiro, homem, se já lhe devolvi no mesmo dia do empenho?”. “Não, seu Padre, o senhor está enganado. Eu deixei o dinheiro com o senhor e quero agora de volta, que estou precisando!”. O Vigário tentou argumentar de todos os jeitos, mas o homem não arredava pé. A discussão já estava chegando até a rua e começava a juntar curiosos para saber do ocorrido. Só se ouvia o homem aos berros afirmando e o Vigário negando.
O caso, como era de se esperar, foi parar na Delegacia de Polícia. José do Egito registrou a queixa e indicou quatro testemunhas. O Vigário foi chamado a se explicar e resolver a contenda. O delegado concluiu depois de ouvir a todos, que de fato o Vigário ficara depositário dos 500 contos réis de José do Egito e que deveria devolver a quantia devida. O Vigário continuava negando e recusando-se a desembolsar tamanha quantia.
Como a situação não se resolvia, José do Egito contratou um advogado e levou o caso à Justiça. A petição dizia que o Vigário deveria pagar a quantia em 20 dias, sob pena de execução forçada, com penhora e arresto de seus bens. O Vigário ficou louco, sem saber o que fazer. Agora não só corria o risco de pagar uma quantia que não devia, como de ficar desacreditado na cidade, como depositário infiel. O Bispo da paróquia foi chamado para intermediar o caso.
O Bispo ouviu a ambos em confissão e todos repetiram as mesmas histórias, aos olhos de Deus. O Bispo, depois, saiu em defesa do Vigário. E foi ameaçado de responder por danos morais, se continuasse a difamar o queixoso. E não viu saída senão armar ardil parecido para enredar José do Egito e livrar o Vigário daquela situação embaraçosa para a Igreja. Consultou o delegado e o prefeito, e ninguém se dispunha a salvar o Vigário da encrenca.
Quando o juiz apareceu na cidade, ouviu autor e réu, e não houve acordo. Começou a instruir o processo ouvindo as testemunhas de um e de outros. As testemunhas de José do Egito foram unanimes em afirmar que assistira ao queixoso entregar o dinheiro ao Vigário. As testemunhas do Vigário só conseguiram afirmar a boa honra e honestidade do demandado, mas que não vira o Vigário devolver o dinheiro, como afirmara.
O advogado do Vigário procurou José do Egito para um acordo, ele só aceitaria se lhe fosse devolvido os 500 contos, e nenhuma outra coisa. O dinheiro se fosse pago, arruinaria a Paróquia, alega o Vigário, mas José do Egito não queria saber de nada disso, queria o seu dinheiro. Defender o Vigário estava difícil, não se encontrava uma só pessoa que soubesse da devolução do montante. E a vida do Vigário estava bem complicada. Ninguém mais lhe encomendava missa, defunto ou qualquer serviço. Até os batismos estavam suspensos.
Chegou o dia do julgamento, e toda a cidade foi assistir. O Vigário diante do Juízo, aos prantos, jurava de pés juntos que tinha devolvido o dinheiro, e que José do Egito deveria ser homem para assumir o fato. O juiz advertiu ao Vigário que ele não estava em condições de ofender a honra de Seu José do Egito e que poderia ser vítima de outro processo. Mas o Vigário não estava disposto a aliviar e implorava como uma criança pelo julgamento de improcedência da ação.
Um famoso Coronel da região e conhecido de todos, compadeceu-se da situação do Vigário e tentou uma saída de mestre. Chamou o advogado do Vigário e lhe confidenciou que tinha a solução para o caso. Pediu permissão ao juiz para apresentar a evidência e o testemunho daquele distinto senhor. O juiz concordou após ouvir as razões alegadas, e José do Egito não entendeu nada do que estava acontecendo, pois sequer tinha tido contado com o homem.
E o homem começou a falar: “Senhor Juiz, acho que o Seu José do Egito se equivocou, na verdade ele quando recebeu o dinheiro do Senhor Vigário, ele passou lá em casa e deixou o dinheiro comigo!”. Todos se entreolharam com um ar de espanto e surpresa, pois o Padre já beijava o chão em agradecimento a Deus, pela salvação, e sorria aliviado. O Bispo também já fazia o sinal da cruz, pelas graças alcançadas.
E o Juiz mal começou a falar e foi interrompido por Seu José do Egito, que deu um salto da poltrona: “Pera aí, Coronel, não misture as coisas, o problema aqui é entre mim e o Padre, e não se meta nisso. Nosso negócio é uma outra coisa bem diferente, e, aí, são outros quinhentos!”. Passou a mão no dinheiro oferecido e embolsou, com a cara deslavada. E se desculpou com o Juiz.
O juiz sem ter o que fazer, bateu o martelo condenando o Vigário a pagar os 500 contos de réis, as despesas do processo e os honorários advocatícios. O Padre caiu desmaiado, em meio ao grito da multidão que aplaudia a justiça do caso. Foi a partir daí que a expressão passou a ter o sentido que nós conhecemos. (José Diniz de Moraes, Natal/RN, 23/05/2015)