Arquivo do dia: 02/02/2014

Viagem à volta do meu criado-mudo

por Marcelo Franco

Do alto das minhas pilhas de livros, trinta e nove anos de leituras atrasadas me contemplam. Os montes inexplorados — meus himalaias particulares — me fitam e eu, planejando viver mais oitenta e cinco invernos, peço calma a eles e paciência aos deuses para com este humilde pecador.

Meu motor de explosão necessita de livros como carburante, o que me levou a juntá-los desde criança. Lá pelos meus 10 ou 12 anos, confrontado com a dura realidade do mundo cruel, tragicamente deixei de lado um futuro como desbravador do Velho Oeste ou astronauta e passei a me dedicar a uma das poucas atividades em que tenho tido sucesso, a acumulação indiscriminada de livros (isso depois de brevemente também ter considerado tornar-me poeta tuberculoso para viver cercado de belas mulheres sempre dispostas a atender aos meus desejos de moribundo, pois que compungidas com a minha situação de artista incompreendido e privado de leituras por ter colocado os livros no prego). Aos 20 anos, a coisa já era patológica (escreveu Paul Nizan: “Eu tinha vinte anos. Não me venham dizer que é a mais bela idade da vida”). Por ter 20 anos, porém, em algum momento os livros disputaram espaço com os líquidos olhos verdes de Patrícia, mas o excesso de leituras desordenadas me deixara ciente de que eles viriam, causariam os estragos costumeiros e inescapáveis dos líquidos olhos verdes e iriam embora — portanto, a ordem natural das coisas seguiu o seu curso próprio: os olhos verdes se esfumaram, os livros permanecerem e depois houve outras Patrícias. De qualquer modo, tudo ficou ainda mais fácil quando me convenci de que, naquela trágica idade de 20 anos, já tinha os 39 que só alcancei efetivamente neste ano (e agora, supostamente com 39, sei que tenho na verdade 54 anos). Continua na fonte: Revista Bula

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