Arquivo do dia: 24/11/2012

O peso dos livros – por Ronaldo Bressane

Querida Vilma,

perto de sua atividade febril flanando por academias, escolas, parques e jantares, sou um tiozinho sedentário. Cá estou encerrando o superferiado que passei fechado em casa organizando estantes, “desbastando-as”, como me disse há pouco na Mercearia S. Pedro (são três da manhã e estou vagamente bêbado, ou seja, vagamente vago) o Marçal Aquino, que acabou de se mudar e conseguiu corajosa e talentosamente reduzir seu acervo de 54 anos de leitura a meros três mil livros.

Afinal, Vilma, para que um sujeito deve ter mais de três mil livros, ou 300, ou apenas três? Minha última mudança (última não, a mais recente, como uma vez me disse um vagabundo de rua no Rio de Janeiro, depois que ao me pedir, mais uma vez, um cigarro, eu disse “tá, mas é o último, beleza?”, me replicou “último não, camarada. Mais recente. Nunca diga último”, um dos grandes ensinamentos que a rua me trouxe), minha mais recente mudança, da casa da minha ex-mulher, trouxe a este apartamento cerca de seis mil livros, sem contar as centenas de revistas e recortes de jornais; e é esta “poupança” que passei desbastando todo o feriado. Questões telúricas se me assoberbavam: lerei mesmo este livro? Esse monte de livros ruins que me enviaram, com dedicatórias, devolvo-os ao Grande Oceano da Informação Indiferenciada (sebos ou oficinas de reciclagem de papel), ou quem sabe me detenho sobre eles mais uma vez, abrindo qualquer exemplar ao acaso, para me deparar com a Frase Genial Perdida, aquela pela qual vivemos durante toda a nossa vida entre bibliotecas, livrarias, sebos e catálogos de velhos alfarrábios?

Resolvi que precisava dispensar ao menos quinze caixas. Os livros mais bacanas foram bater em Capão Redondo, nas mãos do Ferréz. O autor de Capão Pecado organizou, junto com o Mano Brown, uma bela biblioteca em um terreno onde antes havia funcionado uma boca de fumo – que visitei, junto com o bibliófilo José Mindlin, para uma reportagem na revista Trip (dá pra ler aqui). Quando juntei as bibliotecas com minha ex-esposa, havia muitos livros repetidos – lá se foram para a nova biblioteca que o Ferréz montava em uma casa que ele mesmo comprou, no Jardim Comercial, uma das muitas quebradas do Capão. Na separação, para sair mais leve de minha ex-casa, mandei para lá mais meia-dúzia de caixas. É reconfortante saber que meus livros “voltam” ao lar – é que morei no Capão dos 2 aos 8 anos, quando ainda era um bairro da zona sul isolado entre vastas porções de mata atlântica original, não a atual cidade de 1 milhão e 200 mil pessoas. (continua) Fonte: Blog do Instituto Moreira Sales

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E enquanto uma chora, outra ri; é a lei do mundo (…)

“E enquanto uma chora, outra ri; é a lei do mundo, meu rico senhor; é a perfeição universal. Tudo chorando seria monótono, tudo rindo, cansativo; mas uma boa distribuição de lágrimas e polcas, soluços e sarabandas, acaba por trazer à alma do mundo a variedade necessária, e faz-se o equilíbrio da vida.” – Machado de Assis, in “Quincas Borba” (1891), capítulo XLV.

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